segunda-feira, 23 de julho de 2012

CHATRAN, meu pobre cachorrinho


Ah, meu pobre cachorrinho, do quão lenta dor sucumbira.
Nem a morte mais lhe queria.
De tal carcaça que se tornara sua antes felpuda estrutura.
Nem os carrapatos mais lhe queriam,
companheiros de araque!
Partiram todos em retirada.

Nosso ipê amarelo ainda estava lá.
No mesmo quintal,
quintal da nossa infância,
dos outonos que vimos passar,
das estrelas que assistimos sem saber contar.
Você nunca aprendera.

Ah, meu pobre cachorrinho, as suas pernas já mancas.
Nem o chão mais lhe queria.
Seus olhos tão minguados, já esquecidos de como pedir.
Nem a fome mais lhe queria.
De falsa aparição as vezes chegava voraz,
um grama de carne ao seu corpo languido não acrescentava.

Nossas histórias ainda eram as mesmas que eu cantava
e os nossos segredos de outrora,
que em latidos você nunca a ninguém contou.
Os nossos esconde-escondes e brincadeiras de pega
o seu bom faro e difícil cansar...
no tempo também se perdera.

Ah, meu pobre cachorrinho Chatran, meu fiel amigo.
Por que partiras e não me levara?
Nosso pacto de criança,
esquecera dele, esquecera de mim.
Sua tão limitada mente de cachorrinho
de tudo esquecera.
Minha tão fraca mente humana,
um dia falha, talvez também o esquecerá.

Adelle Silva

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